FORMAÇÃO

A ansiedade dos nossos dias e a sabedoria da vida

Na ansiedade de percorrermos o caminho, esquecemo-nos de viver o aqui e o agora

Não há lugar para sabedoria onde não há paciência.
(Santo Agostinho)

O celular está bloqueado. Tela escura. De repente, a notificação: alguém falou com você. Você desbloqueia a tela e, imediatamente, entra no aplicativo de mensagens. Responde quem o chamou e, já que está ali mesmo, corre os dedos rapidamente por todas as dezenas de grupos com centenas de mensagens. Detém-se aqui ou ali, mas, de um modo geral, apenas passa por todas elas na busca da sensação de ter “zerado” aquelas conversas pendentes.

Foto: Wesley Almeida/cancaonova.com

Você fecha o aplicativo. O celular em mãos, já desbloqueado, praticamente impõe uma corrida ligeira pelas principais redes. “Coisa rápida”, você afirma mentalmente para si mesmo. Verifica marcações em fotos, curtidas e comentários. Uma olhada no feed de notícias, na time-line de algum familiar. E, sim, você é humano! Então, cede a alguns minutos bisbilhotando postagens dos outros. Mas você não está stalkeando! “Eu nem tenho tempo para isso”, reafirma em seus pensamentos. São os outros que fazem isso, não você.

Das redes sociais, você passa ao seu e-mail para verificar correspondências de trabalho, promoções imperdíveis, ofertas irrecusáveis. Em um mundo tão competitivo, você tem medo de demorar a dar alguma resposta profissional e perder a oportunidade.

Ufa! Missão cumprida! Não sem antes postar aquela selfie no meio do dia. Afinal, Descartes estava errado. Nada de “penso, logo existo”. Vivemos em tempos de “comento publico e compartilho; logo, existo!”.

Você bloqueia o celular e o coloca sobre a mesa. Levanta-se para ir à cozinha beber água. O toque alerta: alguém enviou uma mensagem para você. Tudo recomeça.

A ansiedade está governando nossos dias. Bombardeados insistentemente por informações, conectados até a exaustão e solicitados frequentemente por uma maximização em rede, perdemos o tempo do agora. Estamos aqui e, ao mesmo tempo, não estamos. Vivemos em dois mundos e ainda não aprendemos a viver em harmonia com essa inédita dinâmica de ter uma vida amplificada pelo universo digital.

Eu não sou pessimista. Acredito que todos os avanços tecnológicos constroem, ao longo dos tempos, novos comportamentos. Vivemos uma época de quebra de paradigmas.
Precisamos, para começo de conversa, estar atentos; e podemos começar agora, aqui, hoje.

Conecte-se, mas também se relacione com você, com o próximo, com a criação, com Deus. Só assim a frase de Santo Agostinho fará sentido.

Na ansiedade de percorrermos o caminho, de encurtarmos as distâncias, perdemos a oportunidade de experimentarmos a verdadeira sabedoria. Sabedoria vem de Sapere (sabor). Sábio é aquele que sabe saborear a vida, que conhece seus temperos, sente o gosto sem pressa e vive o aqui e o agora.


Augusto Cezar

Músico da banda DOM, compositor, escritor de 3 livros, professor e palestrante. Não sou nada do que realizei. Fui e sou tudo o que amei e amo. Além disso, não sou mais nada. www.augustocezarcornelius.com.br

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