FORMAÇÃO

Sonhos a lápis

Sonhos que sonhamos sem Deus são sonhos a lápis

A vida sempre ganha contornos diferentes do planejado, e nela nós colocamos nossas metas e sonhos, sem nos questionarmos se é mesmo esse o melhor caminho a seguir, a melhor decisão a tomar.

Na nossa musicalidade, como em tudo em nossa vida, sempre seguimos nossas inspirações sem nos questionarmos. Há canções que gritam forte em nossa história pessoal, mas é só nossa e para nós, não para os outros. No entanto, somos audaciosos e vamos com tudo mostrar a todo mundo. Às vezes, até conseguimos gravá-la num CD e ela fica ali esquecida, como a última faixa do lado B dos antigos discos de vinil.

Sonhos a lápis

Sonhos que sonhamos sem Deus são sonhos a lápis.

Se ao menos executássemos o básico, no início de cada projeto pessoal, acertaríamos muito mais e sofreríamos muito menos. Ao longo dos últimos dez anos, tenho observado o vai e vem de pessoas do meu convívio. Gente que chega com a bagagem cheia de pequenos pacotes, todos rotulados e etiquetados com desejos íntimos, exclusivos, inteiramente pessoal. À medida em que vai tendo a oportunidade de abrir seus pacotes para que todos conheçam seus conteúdos, cria uma grande expectativa quanto a reação que os curiosos expectadores vão ter ao descobrir o que cada pacotinho de sua mochila tem.

Nem sempre a reação do outro é a esperada por cada um de nós. Aos poucos, os sonhos escritos a lápis começam a se desmanchar. Sempre queremos mais das pessoas e oferecemos bem menos a elas. Sempre apostamos bem mais em nossos sucessos, mas pouco nos empenhamos para que eles aconteçam. Sempre exigimos mais de uma recente amizade, do que oferecemos aos velhos amigos. E assim vamos usando o látex extraído da seringueira e prensado em pequenas formas, ao qual chamamos de borracha, para apagar nossos sonhos e desenhar novas metas pessoais. 

É claro que ninguém quer ser criticado ou corrigido!

Nessa estrada de meio século que tenho caminhado, ainda não vi uma só alma capaz de aceitar um conselho ou correção sem desconfiar ou duvidar de quem o faz. Dia desses, vi mais uma página da minha lista dos que entram e saem da minha vida ser virada. Alguém que chegou com toda uma ideia formatada em seu coração, mas, no crepitar da chama, foi descobrindo a certeza de que deu muito crédito ao seu projeto pessoal e esqueceu-se de conversar com quem verdadeiramente cria esse e tantos outros projetos que nasceram um dia em nós. Era esse o tempo certo de buscar esse sonho? Era esse o jeito certo de escrever em letras garrafais: TENHO CERTEZA QUE AGORA É ISSO! O tempo e os atritos das pedras no mesmo saco vão mostrando, aos poucos, que não.

Sonhos a lápis_2

O caminho na música nem sempre é fácil.

Às vezes, na estrada da música, nada é o que parece ser. O caminho é pedregoso, cheio de espinhos, e nem imaginávamos que era assim. O simples cantar numa Missa pode parecer uma prova de fogo a cada dia, porque o microfone que seguramos é desejado por muitos. Sem perceber, ele passa de mão em mão e nem todo mundo o segura com o verdadeiro sentido que ele merece ser segurado. Daí o tempo passa, a vida segue e quando percebemos, já não estamos do jeito que começamos. Então, não se tem mais forças para insistir e só lhe cabe desistir daquele que era seu sonho, mas que não foi sonhado junto com Deus. Sonhos que sonhamos sem o consentimento e a participação d’Ele serão sempre sonhos escritos a lápis.


Wallace Andrade

Wallace Andrade é jornalista, músico, missionário, casado e pai. Atualmente, exerce a função de editor executivo do Canção Nova Notícias, além de redator e apresentador do Repórter Canção Nova. 

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