O músico como adorador: lições do encontro com a samaritana
A paz, irmãos músicos!
Deus abençoe a cada um.
Neste terceiro domingo da Quaresma, o Evangelho escrito por São João nos traz a figura da Samaritana, uma passagem do Evangelho que inspirou canções e pregações lindas, não é verdade?
Vamos discorrer sobre duas realidades: Músico como adorador e a pessoa do músico, conhecida por ser alguém difícil de lidar.
“Mas está chegando a hora, e é agora em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, esses são os adoradores que o Pai procura: Deus é espírito; e aqueles que O adoram devem adorá-Lo em espírito e verdade.”
Na semana passada, conversamos um pouco sobre a necessidade de sermos íntimos do Senhor. Para criar tal intimidade, é necessário uma abertura de coração, uma pré-disposição da nossa parte em nos deixarmos conhecer por Ele.
A tentação que se revela a partir desse Evangelho é pensar que Deus conhece tudo sobre nós, então, não precisamos contar nada para Ele. Não precisamos fazer absolutamente nada além de servir-Lhe, e Ele fará tudo, pois servir-Lhe já nos coloca em uma condição de proximidade.

Créditos: Arquivo CN.
A samaritana e a tentação de naturalizar o espiritual
Talvez estejamos mais próximos de Jesus fisicamente na Sagrada Eucaristia, mas o coração pode permanecer longe no que diz respeito à intimidade.
Antes ainda de falarmos do trecho citado acima, perceba que Jesus chegou no poço e sentou. Chegou a mulher, e Jesus pediu a ela: “Dá-me de beber!”
A mulher não sabia quem era Jesus, mas Ele conhecia o coração dela. A mulher ainda tem um olhar natural, demonstrando essa realidade quando diz: Você nem tem balde!
A mulher tinha um pouco de nós artistas: sempre racionais, querendo entender tudo, naturalizar o espiritual.
Imagino que Jesus deva ter esboçado um sorriso e, com muito amor, respondido: “Todo aquele que beber da Água Viva não terá mais sede”. Mas a mulher continua no “natural”. “Dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e não venha mais aqui tirar água”. Veja que a preocupação dela era mudar a vida que ela vivia, pois a vida ir ao poço tirar água já não estava boa. E Jesus, então, encontrou a brecha que precisava para entrar na vida dela.
O espaço para a cura interior
Jesus está esperando que eu e você possamos dar um pequeno espaço para que Ele entre de cheio na nossa história e comece a curá-la, transformá-la de dentro para fora.
Ele quer fazer novas todas as coisas em nossa vida, mas insistimos em naturalizar tudo.
Ser ministro de música é ir além do som, dos arranjos, dos estudos, técnica ou perseguições, é ser um adorador que adora o Senhor em Espírito e verdade. É ser o adorador que o Pai procura, que chega com o coração aberto e deixa que as verdades do seu coração transbordem em adoração.
É claro que essas verdades não só podem como devem vir cheias dos nossos sentimentos, achismos, certezas etc. O que importa é permitir que Ele confirme ou transforme. Incentive ou eduque na adoração. Isso é adorar em Espírito e verdade.
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O estigma do músico “difícil” e a escolha pela fé
A segunda realidade que quero tratar nesse momento de reflexão é o fato de que a mulher era de origem samaritana, e, como diz a palavra, “os judeus não se dão com os samaritanos”.
Quantas vezes ouvimos dizer que lidar com o músico é muito difícil! Uma fama negativa que se espalhou. Mas o músico é mesmo alguém difícil de lidar? Talvez seja pela forma com que sente e reage em relação aos fatos e acontecimentos, às tentações e até em relação à perseverança no ministério. Não temos uma resposta exata para essa pergunta.
Mas se o músico se colocar no lugar da samaritana que traz fraquezas na sua história, nas suas escolhas, porém, tem um desejo profundo de se encontrar com Jesus e ter sua sede de Deus saciada, creio que, no final, chegará à mesma conclusão: nunca mais voltar ao poço para satisfazer somente as realidades naturais que o envolvem.
Não quero menosprezar tais realidades naturais, é preciso sim, ter bom som, conhecimento técnico, certa “exigência” para realização do trabalho, afinal, a arte trabalha com a beleza, e Deus se revela no belo, como diz São Pio X. Mas nunca foi nem nunca será somente sobre isso.
Estamos falando de salvação de alma – da alma de quem escuta a música, e também da alma do músico.
Um dos últimos versículos deste Evangelho diz: “Muitos samaritanos abraçaram a fé”. Às vezes, somos músicos que abraçam a música, mas não a fé; abraçamos o serviço, mas não a razão do servir. Você abraçou o quê?
Muito há ainda a ser refletido sobre esse Evangelho, mas creio que para nós é só.
Deixe Deus falar com você após a leitura.
Seu irmão,
André Florêncio
Músico e Membro da Comunidade Canção Nova



