Com qual Cristo me identifico?

Atualmente, estamos acostumados a nos acostumar. Tudo o que pensamos, achamos, parecemos ser convictos, por vezes, acaba diluindo-se e, e em nome de uma pseudofelicidade, tranquilidade, ausência de problemas ou pelo simples fato de não “mexer com o que está quieto” mudamos nossa opinião.

Digo isso porque, percebo que muitos de nós, ministros de música, já não temos os mesmos pensamentos do dia da nossa conversão. Abrimos uma tolerância bem ampla em relação a fé, liberdade e ao que é certo e errado.

Poucos querem viver a radicalidade do evangelho, preferimos a esfera rasa e perigosa dos sentimentos, e falar somente o que é comum a todos. Assim nos comprometemos pouco, mas também, evangelizamos pouco.

Foto: Wesley Almeida / cancaonova.com

Viver a radicalidade, naturalmente vai nos amadurecendo, nos obriga a fazermos escolhas. Já viver pelas sensações faz com que procuremos a melhor maneira, menos dolorosa de enfrentar uma situação ou até não enfrentá-la.

Não porque fomos inspirados por Deus a não enfrentar, mas porque não queremos chegar perto de problemas e sofrimentos, de resolver relacionamentos. É melhor responsabilizar o tempo ou qualquer outra coisa ou pessoa.

Acredito assim que sempre vamos adiando um encontro sincero e amadurecido com o Cristo. Pois, nas dificuldades encontramos a cruz, que dói, que humilha. Fugindo das dificuldades encontramos sempre o Jesus que criamos dentro de nós, que se adapta a tudo e todos, porém, não nos coloca no caminho da salvação, mas nos deixa estáticos.

O Cristo da Semana Santa esse que não é bonito, que não tem aspecto humano, assim como diz Isaías 53, 2-3: “Não tinha beleza, nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse. Era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimento; passando por ele, tapávamos o rosto. Tão desprezível era, não fazíamos caso dele”. Esse é o homem que encontramos, e esse é quem precisamos amar, esse é o caminho que vamos seguir.

Não estou aqui, em alto nível de santidade, pedindo sofrimento, nem aconselhando você a tal loucura, mas quero fazer uma provocação.

Qual Cristo que queremos nos encontrar ou que buscamos?
O ressuscitado, vitorioso? Mas para chegar a ser o ressuscitado, Jesus foi humilhado, excluído, falaram mal dele, mentiram sobre ele, o traíram, Jesus morreu, e aceitou morrer de uma morte cruel, para que a vitória acontecesse e nós hoje, pudéssemos entender que para chegar à vitória plena é preciso combater o bom combate da fé. E essa é uma verdade que não vai se diluir, nem desaparecer e mesmo que ninguém aceite, sempre será assim, porque isso é imutável.

Foto: Wesley Almeida / cancaonova.com

Não há vitória sem Cruz

Qual a face de Cristo que mais te encanta? Quando você reza, com qual face dele você se depara? Talvez seja a do Bom Pastor, talvez seja Aquele que chorou diante da notícia de Lázaro, seu amigo, morto, talvez seja a de Jesus irritado no templo ou aquele que se encontrou com a samaritana. Poucos de nós nos encantamos com a face horrorosa de Cristo, massacrada pelos nossos pecados.

Então ficamos fazendo poesias e mais poesias com o glorioso, vitorioso, amoroso, bondoso e, hoje em dia, principalmente misericordioso. E Jesus o É. Porém, na nossa interpretação, Ele aceita tudo, permite tudo e, no fim, Ele dá um jeito de arrumar nossa bagunça, porque nos ama. Somos isentos de responsabilidade.

Excluímos lutas, buscas, dores, lágrimas, renúncias, doenças, mortes, desgostos, desprezo. Excluímos pecados, confissão, orações, penitências, jejuns; é esse tipo de evangelização que queremos para nós e para os outros? Já nos acostumamos a viver com o Cristo que nos dá inúmeras sensações e sentimentos?

Que tipo de fé temos? Amadurecida, convicta? Ou já a um bom tempo, vivemos a fé rasa e superficial, e quando nos faltam os sentimentos e/ou vivendo um sofrimento, achamos que Deus nos abandonou, está irritado conosco, nos punindo porque fomos infiéis, achamos que tal evento, pregador, cantor, música, não tem unção porque não sentimos nada, achamos que naquela missa não aconteceram curas e nem milagres, porque não sentimos arrepios ou sensações corporais.

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A fé independe de sentimentos, mas também, diz a Palavra que ela é o fundamento da esperança, é a certeza a respeito daquilo que não se vê. E diz o ditado, o que os olhos não veem o coração não sente. Compreende?

E isso abre um espaço enorme para confiarmos na providência divina, pois, quando mais precisarmos o Senhor se manifestará de forma prodigiosa, porque Ele sempre ouve a oração/canção. Senhor eu creio, mas aumenta a minha fé. Mas, se Ele não está agindo assim e você não está sentindo, alegre -se! Você está no caminho do justo. Porque o justo, vive pela fé.

Aplique-se mais a oração e a escuta do Senhor, mesmo sem sentir nada. Creia!
Pense nisso!


André Florêncio

André Florêncio, André Florêncio é músico, cantor, animador, instrumentista e missionário da Comunidade Canção Nova. Fez curso de aperfeiçoamento na EMESP, gravou seu cd solo “Meu encontro” e é autor do livro “Musica: chamado e serviço”.

 

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