LITURGIA

São Bento e os artistas

São Bento é uma das principais colunas sobre as quais se alicerça a vida monástica dentro da Igreja Católica

São Bento viveu entre os séculos V e VI. Filho de um nobre romano, chegou a estudar retórica e filosofia em Roma. Desiludido com o estilo de vida decadente daquela cidade, retirou-se para uma gruta em Enfide (atual Affile), a fim de viver como eremita. Ao longo dos anos a sua fama de homem sábio e santo se espalhou, e com tantos discípulos fundou diversos mosteiros a partir da sua própria experiência. Um dia, estudando a Regra de São Bento, esse santo fundamental para a Cristandade, eu encontrei algo referente a artistas em mosteiros. Acho que vale dar uma conferida no que nos diz o santo e na sua pertinência nos dias atuais. Em primeiro lugar, propõe o santo:

Se há artistas no mosteiro, que executem suas artes com toda a humildade, se o Abade o permitir.

Toda a arte, para a Regra de São Bento, está em função de um crescimento espiritual da comunidade. Portanto, não é uma autoafirmação. Deve ser exercida com humildade e com a permissão do abade. Continua São Bento:

E se algum dentre eles se ensoberbece em vista do conhecimento que tem de sua arte, pois parece-lhe que com isso alguma vantagem traz ao mosteiro, que seja esse tal afastado de sua arte e não volte a ela a não ser que, depois de se ter humilhado, o Abade, porventura, lhe ordene de novo.

Há uma beleza incomparável neste trecho. Para contemplá-la precisei relê-lo muitas vezes. E convido o leitor a fazer o mesmo. Voltar os olhos sobre o que está escrito pelo próprio São Bento. Trecho relido, podemos refletir: o verdadeiro artista cristão, que faz da sua arte expressão e lugar de crescimento espiritual, deve exercitar a humildade de reconhecer que nada possui que não lhe seja dado por Deus. E se não o reconhece melhor que se cale a sua arte do que corrompa a si mesmo ou aos outros irmãos com a moeda da vaidade. Novamente, chama-me a atenção a presença atenta e respeitada do abade, aquele que determina quando a arte deve ser executada e quando deve ser silenciada. Esse fundamento da obediência é algo distante do nosso mundo, onde o determinismo do “eu” configura as nossas realizações. Numa contestação de tudo e de todos.

Se, dentre os trabalhos dos artistas, alguma coisa deve ser vendida, cuidem aqueles por cujas mãos devem passar essas coisas de não ousar cometer alguma fraude. Lembrem-se de Ananias e Safira, para que a mesma morte que estes mereceram no corpo não venham a sofrer na alma aqueles e todos os que cometeram alguma fraude com os bens do mosteiro.

A história de Ananias, marido de Safira, é narrada nos Atos dos Apóstolos, capítulo cinco. Diz o livro:

Mas certo homem chamado Ananias, com Safira, sua mulher, vendeu uma propriedade, e reteve parte do preço, sabendo-o também sua mulher; e, levando uma parte, a depositou aos pés dos apóstolos. Disse então Pedro: “Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo e retivesses parte do preço da herdade? Guardando-a, não ficava para ti? E vendida não estava em teu poder? Por que formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus”. E Ananias, ouvindo estas palavras, caiu e expirou. E um grande temor veio sobre todos os que isto ouviram.

Ao referir-se a Ananias e Safira, São Bento preocupa-se com a comercialização da arte e as dificuldades que podem advir desse processo, visto que pode despertar as paixões e fragilidades humanas em quem a exerce. Ele não impede a comercialização, mas se preocupa, principalmente, que em tudo haja justiça e que não se perca a alma (e a santidade) daqueles que desempenham essa tarefa. Por fim, termina afirmando o santo de Núrcia: Quanto aos próprios preços, que não se insinue o mal da avareza, mas venda-se sempre um pouco mais barato do que pode ser vendido pelos seculares, para que em tudo seja Deus glorificado.

O bom-senso do santo me impressiona. Em tudo busca o equilíbrio. Admite que comercializar uma obra de arte realizada dentro do mosteiro é algo possível e bom. Que não necessariamente traz prejuízo à fé ou à comunidade. Mas não quer avareza, sede de lucro que desperte paixões pelo dinheiro. Ele mesmo propõe que se venda sempre “um pouco” abaixo do mercado. Ainda que “um pouco” não signifique desvalorizar o que se artisticamente realiza. São Bento termina retomando a citação da epístola de São Pedro: em tudo seja Deus glorificado.

Não há mal nenhum no ofício artístico, nem na sua comercialização, mas que tudo aponte para a grandeza de Deus e que Ele seja reconhecido sempre como o verdadeiro autor das nossas vidas e o Senhor de todos os nossos dons. Atravessando os 1.500 anos que nos distanciam deste santo podemos encontrar aqui bases para refletir melhor sobre a nossa arte e o fundamento da humildade. O reconhecimento de que somos todos partes de um corpo maior do que nós mesmos e de que todos os dons que nos foram dados só existem para o bem comum (1 Coríntios 12,7), a busca de uma humildade que recoloca a obediência aos nossos superiores numa nova perspectiva, a justa e santa relação com a produção musical e os custos e ganhos que dela podem advir — tudo isso pode nos guiar, e ao nosso ministério, em nossos dias.

Do meu livro “Quem Canta Reza Duas Vezes”, ed. Loyola


Augusto Cezar

Músico da banda DOM, compositor, escritor de 3 livros, professor e palestrante. Não sou nada do que realizei. Fui e sou tudo o que amei e amo. Além disso, não sou mais nada. www.augustocezarcornelius.com.br

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