FORMAÇÃO

Existe intolerância religiosa na internet?

Intolerância religiosa na internet pode ‘criar’ um hater católico?

 “A internet deu voz a milhões de imbecis”, diz Umberto Eco. Entretanto, parece que deu voz ao ódio de milhões destacando a intolerância religiosa. 

Segundo a Wikipedia: “hater” é um termo usado na internet para classificar pessoas que postam comentários de ódio ou crítica sem muito critério.

Diariamente, a minha timeline despeja diante dos meus olhos muitas iniciativas de esperança, fé e caridade, mas também uma excessiva agressividade crítica. Não são as minhas ideias que são esmurradas verbalmente ou por meio de imagens (os memes), mas as pessoas.

Eis que abro a loja virtual do celular e lá está a propaganda de um aplicativo chamado: Hater – conheça gente que odeia as mesmas coisas que você!

Existe hater catolico

Intolerância religiosa no ambiente digital 

Parece que a internet permite e protege a disseminação de certos ódios e conflitos que, se vividos presencialmente, seriam suavizados por regras de boa convivência e respeito.

Há, também, uma certa permissividade em invadir a privacidade do outro. Trabalhando por anos com adolescentes, tenho visto a frequência com que acontece a exposição por fotos e vídeos dos “piores” momentos dos outros. O que antes era apenas uma crítica verbal (ainda que cheia de vociferação), agora ganha cores, imagens e sons descontextualizados, impiedosamente julgados como se do outro lado não houvesse um outro ser humano. Aliás, expor o outro ou mesmo multiplicar a exposição que ele fez de si mesmo, parece dar certa satisfação. Como se houvesse um “nós” e  “eles”, onde os limites entre mocinhos e bandidos, santos e pecadores, justos e injustos, tranquilizasse nossa consciência.

A intolerância religiosa com as divergências se misturam com os intolerantes

Doutorando em Ciências da Cultura e da Comunicação na UFABC e professor de Jornalismo Digital na Faculdade Cásper Líbero, Renato Rovai explica que “os haters são pessoas com ideologias fortes e que não aceitam opiniões divergentes. Para atacar os internautas com ideias diferentes, eles se unem e enviam mensagens de ódio”.

A intolerância às divergências assusta. A incapacidade de dialogar respeitando as diferenças se torna onipresente, em especial a intolerância com a incoerência ou o que se considera incoerência do outro. Um post, uma foto, um comentário já são suficientes para rotularmos o outro e sua conduta. Já são suficientes para sermos chamados a orientarmos sua conduta e boa doutrina. No ambiente digital, diferente do presencial, somos todos fiscais da vida alheia.

Os muitos tons neste panorama

Meu amigo, um bom amigo com quem tenho diferenças e semelhanças, alerta-me que existem haters, mas precisamos saber diferenciá-los daqueles que defendem a doutrina, daqueles que o fazem (defender a doutrina) de maneira exagerada (por falha de formação) e dos conservadores. Meu amigo me lembra de que são muitos tons e não só preto no branco. Existem muitos, mais de 50 (!?), tons neste panorama!

Um caminho ou saída?

Bem, eu não sou um filósofo, sociólogo, pensador ou coisa semelhante. Sou um evangelizador, catequista, cristão católico. Sou pecador. Todos os dias, penso em como construir o Reino de Deus aqui e agora. Pouco a pouco. Em um “já” e um “ainda não”. Não tenho respostas prontas.

Tenho preocupações e sofrimentos por todos, pelos que odeiam e são odiados, os que não toleram e não são tolerados. Os que corrigem sem se preocupar com os corrigidos. Não quero a permissividade e a relativização absoluta, mas também não posso deixar de partir sempre do mesmo ponto, que é paradoxalmente o mesmo ponto de chegada também: o outro. “Amando o próximo, limpas os olhos para veres a Deus”, lembra-nos Agostinho. Não cabe aqui eu julgar o amor e a caridade de quem publica, comenta ou compartilha. Talvez, caiba mais a preocupação com a trave no nosso olho do que com a trave no olho do outro.

No fim, nem todos dizem: “Senhor, não foi em Teu nome que fizemos isto ou aquilo?”. No fim, teremos de ter mais para oferecer em obras de misericórdia. Corrigir faz parte da dinâmica de comunidade, mas também precisamos cuidar dar forma, do tom e do timbre, do lugar propício, ainda que este lugar seja uma rede social. Publiquem-se textos e exponham-se argumentos. Deem-se testemunhos de santidade e coerência. Não silenciemos no que podemos contribuir para o crescimento da Igreja. Mas não humilhemos os outros ao expor suas limitações. Não apedrejemos quando o outro parece estar em pecado. Nem a humilhação nem as pedras constroem o vínculo de caridade que alicerça o Reino de Deus.


Augusto Cezar

Músico da banda DOM, compositor, escritor de 3 livros, professor e palestrante. Não sou nada do que realizei. Fui e sou tudo o que amei e amo. Além disso, não sou mais nada. www.augustocezarcornelius.com.br

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