Técnicas de gravação

Microfonando o violão no estúdio – Parte 2

Várias pessoas sugerem microfonar o violão próximo à cabeça do músico, mas esse tipo de coisa não funciona

Não sei se todo o mundo já percebeu, mas os instrumentos foram feitos para serem ouvidos por uma plateia. Ou seja, o músico que está executando alguma música não é quem ouve melhor o som produzido por seu instrumento. Por isso acho curioso que muita gente sugira, tente e ache até razoável microfonar o violão do ponto de vista do músico. 

Microfonando o violao

 O violão, por ser muito popular e ter baixo volume de emissão [de som], acaba desenvolvendo esta atmosfera intimista com o músico. Por exemplo, enquanto um violonista pode passar a madrugada inteira tocando suavemente em seu quarto, o mesmo não se pode esperar de um trompetista. E um baterista dificilmente vai conseguir tocar sem afetar a vizinhança.

No entanto, várias pessoas sugerem microfonar o violão próximo à cabeça do músico. Infelizmente, esse tipo de coisa não funciona, resultando numa sonoridade que um ouvinte típico definiria como “estranha” ou “distante”. Esse também é o caso das microfonações mais distantes. Embora o ouvinte típico de um violão esteja situado mais ou menos a 1,5 m dele, se colocarmos um microfone a esta distância, acabaremos captando também a sua ambiência por causa do baixo volume de emissão do instrumento.

Alguém pode argumentar que isso dá certa naturalidade ao som, mas o problema é que essa ambiência imprime no som gravado o efeito de uma sala não imaginado nem ideal para a música final. E uma vez registrada essa ambiência, não há como retirá-la depois da gravação. Por essa razão, ao longo dos anos, a posição mais próxima do violão, com o microfone a uns 40 a 60 cm, apontando para o décimo segundo traste, acabou consagrando a personalidade do “violão gravado”.

Isso nos leva a outro ponto interessante. As pessoas, depois desses mais de 100 anos de música gravada e mais de 50 de música “pop”, acabaram desenvolvendo uma “cultura auditiva” – os instrumentos ganharam um som nos discos que é típico, e não necessariamente fiel ao que é ouvido acusticamente. As pessoas esperam ouvir um violão (e vários outros instrumentos) de certo jeito a que estão acostumadas.

É possível burlar isso, sem dúvida, mas nesses casos se provoca um importante efeito artístico. Quando a pessoa ouve um som de violão que já “conhece”, tende a se concentrar na música, ao passo que, ao ser submetida a uma sonoridade “nova”, foca sua atenção no som e se desconcentra da música. Essa é uma ferramenta de produção boa de ter, mas que exige cuidado no uso.

Leia também:

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Fábio Henriques

Formado “cum laude” pela UFRJ em 1985. Após trabalhar durante 8 anos como engenheiro de hardware e software, cursou Recording Engineering na The Recording Workshop, USA, onde pôde unir sua formação musical com a tecnologia.

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